22 de abril de 2012

Para. Olha. Sente. Crê.


Raios da tarde invadiram as frestas da janela. E até tentou levantar-se mas sem sucesso retornou ao seu buraco e cobriu-se até a cabeça deixando apenas um misero fio de respiração passar. Tão cansada de narrar o silêncio de suas dores em suas suplicas secretas que de quando em quando perdiam a intensidade, resolveu deixar de lado o caderno e assumir a cobertura como refúgio. Seus momentos de alegria beiravam a ironia e sua felicidade composta/incompleta/triste se tornou tão dolorida que a negou permitir existir. Tão cansada de mascaras ainda que ela própria precisasse fazer uso quando tentava contato direto com o mundo/espelho-mudo, tão perdida e sozinha por aqui e por ali tropeçando em uns e outros aplicando toda a força necessária para se agarrar em sua utopia que foi o que de mais seguro lhe restou, lá, seu mundo futuro, intocável, até hoje tão distante, tão fugindo, tão seu. Descobriu a cabeça e pôde encher os pulmões novamente, seus olhos agora carregavam as provas e seu coração os resultados, que se subdividiam em notas - como aquelas, é, aquelas, daquela canção bonita lá, que a abraça em paz - Ou números contados de acordo com os passos rumo à sua própria existência em fantasia. De uma só vez, puxou o resto do cobertor revelando até a cor das meias que usava - que apenas usava - e abruptamente num só movimento deslocou-se finalmente da cama deixando desaparecer lentamente o buraco no colchão. Cambaleou até o banheiro, lavou o rosto, mirando o espelho encarou a face marcada pelos golpes da noite/madrugada/manhã e direcionou-se ao chuveiro, gota após gota de alivio, dispensando emoções, onde já não cabiam mais cicatrizes. E então, enquanto o amarelo laranjado no céu surgia descobriu que estava viva e foi viver!

Joice Inácio, 19 de Abril de 2012.

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