19 de maio de 2013

Gaveta.


Paro, observo tudo ao meu redor e sei que um dia nada mais irá existir, pelo menos não da mesma forma. Costumava pensar que o tempo consumia tudo, até perceber que ele apenas modifica as coisas, nada se vai, nada é perdido. Mas como não dizer que ainda há o medo do tempo?, medo da sua velocidade, medo de como ele nos lança num futuro incerto, medo de como o passado fica mais distante a cada dia, medo das perdas que virão, de encarar o envelhecimento, a morte, a proximidade do fim, medo de como o tempo faz com que eu perceba a fragilidade da vida, a fragilidade dos sonhos, de todos os papeis guardados na gaveta, a fragilidade dos que estão escrito a lápis, das centenas de momentos escritos que eu protejo por medo que o tempo os leve, tão leve quanto os trouxe a mim. Não que eu proteja o passado, protejo o presente que o tempo transformou em lembrança. Protejo na minha gaveta, onde infelizmente não posso guardar a minha família, a minha casa, e as lembranças dos tempos que vivemos aqui. Não cabem na gaveta os almoços de domingo que costumavam ser na casa da minha avó antes de ela se mudar para o interior com todas as coisas que não couberam na gaveta, assim como não cabem os frango de padaria que nunca foram comprados numa padaria, o macarrão da tia Lourdes que eu nunca experimentei, a lasanha ás vezes doce demais, seca demais, salgada demais, crua demais, mas sempre na medida certa, a maionese que a minha mãe fazia no domingo bem cedinho, o filé de peixe e o bacalhau da sexta-feira santa, os quilos que carne para churrasco que sempre sobravam. Não cabem na gaveta as sobremesas do almoços em família o pavê da tia Lourdes, o bolo de chocolate, a torta de abacaxi ou o brigadeirão da tia Sidney, o pudim e a gelatina colorida da minha mãe que também eram feitos bem cedo ou na noite anterior. Não cabem na gaveta o vai e vem de potinhos de margarina e de sorvete que serviam de embalagem e passavam de casa em casa deixando as sobras de domingo para o almoço de segunda-feira, que dependendo de que quem havia comprado ás vezes durava até a quarta-feira ou até alguém desistir de comer e essas sobras, não cabem na gaveta, assim como todos os carros que meu pai já comprou e a forma como cada um deles marcou a nossa vida de algum jeito, principalmente os que nos levaram para Penápolis, uma cidade tão pequena mas que jamais caberia na gaveta, assim também como o fato da minha mãe não entender o porque do meu pai trocar de carro a cada seis meses (na verdade ninguém entende), por ela nós ainda estaríamos com o fusca branco, nosso primeiro carro, cujo devo ressaltar que os bancos pareciam ser revestidos de milhões de pontas de agulhas que também não cabem na gaveta. Há muitas coisas que não cabem na minha gaveta e que eu realmente gostaria de guardar, proteger, ajuda-las a sobreviverem ao tempo, como por exemplo o antigo guada-roupa, que não nos levava para Nárnia, mas também era um teletransporte para um universo paralelo onde podíamos ser quem gostaríamos de ser, viver na época e da maneira que gostaríamos de viver, ter a profissão e o numero de filhos que desejássemos, e quando digo nós, me refiro a Emely e eu. Cada dia era um dia diferente. Cada dia é um dia diferente. Cada dia será um dia diferente, e eu gostaria que coubessem na gaveta...

Joice Inácio.